Murphy, o ladrão de malas

Azar não é doença, dizem, mas tenho quase certeza de que é hereditária. E, após lerem esse meu relato, estou segura de que vocês concordarão comigo.

Hoje, quando eu paro para pensar nessa história, acho tudo muito absurdo, mas juro por Odin que foi assim mesmo que aconteceu.

Eram os anos 90, quando esta que vos escreve ainda sequer tinha trocado todos os dentes de leite. Minha querida família Buscapé e eu voltávamos da praia, após inesquecíveis férias — que se tornaram ainda mais memoráveis depois desse fatídico episódio.

Carro lotado (de gente* e de malas) e meu pai fazia todo o possível para manter sua fama autoatribuída de dublê do Ayrton Senna. A cada ultrapassagem, era como se tocasse o tema. Para completar, só faltava o Galvão gritando “Ayrton, Ayrton, Ayrton Senna do Brasilllllllll”.

Vocês imaginam, então, a satisfação de meu querido progenitor quando conseguiu, mesmo com um carro velho (e toda a galera e as malas), ultrapassar um Fiat Tipo, que era o carro do ano.

Gabações pra lá e pra cá, dali a pouco precisamos parar num posto de combustíveis, pois minha avó pediu para usar o toalete. Enquanto esperávamos, meu pai desceu do carro para um cigarrinho e começou a rir. Olhou para nós, dentro do carro, e revelou: “perdemos as malas”.

Como àquela época eu já sabia ser filha do legítimo pai troll, não dei muita importância. Mas, quando desci do carro constatei que era verdade. O bagageiro, que deveria estar acoplado sobre o teto do veículo, havia desaparecido.

Discutimos como é que poderia ter caído, e em que ponto, já que não notamos nada, mas sem chegar a qualquer conclusão. Neste interregno, vimos vários carros que já havíamos ultrapassado passando por nós novamente. Entre eles, o Fiat Tipo. E logo vocês vão entender o porquê de este veículo ser tão importante nesta história.

Em seguida, parou um outro carro perto de nós, e o motorista desceu, esbaforido: “o cara do Tipo catou tuas malas!”.

Levamos um tempo para processar a informação. Meu pai, com cara de “oi?”, perguntou algo como um “oi?” mesmo.

E foi então que o outro nos contou: “sim, é isso mesmo! Eu vi quando o bagageiro de vocês desprendeu do carro e caiu na estrada. O cara do Tipo parou e catou as malas de vocês.”

Ainda sem acreditar no quão inusitada era aquela situação, meu pai decidiu: vamos atrás dele. Porém, minha avó ainda não havia voltado do toalete, e minha mãe foi apressá-la.

Quando voltamos à rodovia, o “cara do Tipo” já estava a milhas de distância. Meu pai, determinado a recuperar nossos valiosos pertences, sem dó nem piedade esgoelou o motor, judiou dos pangarés (ainda bem que não eram pôneis) e botou a velha Parati para fazer cosplay prematuro de Velozes e Furiosos.

Por um momento, eu cheguei a me sentir num filme de perseguição policial, com a pequena diferença que não somos policiais, o cara não era bandido (ou era? Nem sei), e a vida real não tem nada a ver com o glamour do cinema.

Mas, deixando meu imaginário infantil de lado, voltemos aos fatos. Após sabe Deus quantos quilômetros de pura adrenalina (Sessão da Tarde feelings), alcançamos o dito cujo, vulgo “cara do Tipo”.

Cola na traseira, dá sinal de luz, buzina… Meu pai fez de tudo. E o infeliz só acelerava mais e mais. Não vendo outro jeito, meu pai o ultrapassou (de novo!!!) e o obrigou a encostar. Conversa vai, conversa vem, e ele negava que tivesse visto nossa bagagem.

Eis que, para nossa surpresa, minha mãe olhou para dentro do carro dele e viu nossas malas sobre o banco. Os filhos dele estavam sentados em cima… (Não me olhem com essa cara, eu também achei absurdo).

Não tendo mais como negar, o “cara do Tipo” acabou devolvendo as malas, junto com alguma desculpa pra lá de esfarrapada, da qual jamais vou me lembrar.

Prosseguimos viagem depois disso, de volta para casa, rindo, sem acreditar no episódio bizarro que havíamos acabado de protagonizar. Mas, com uma certeza: família que enfrenta a Lei de Murphy unida permanece unida.

*Estávamos no carro: Pai, mãe, vó, a empregada, eu e meu irmão, que era de colo.

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